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Criada nos anos 70, com a Revolução de Abril, a Extéril foi originalmente uma minúscula galeria, um pequeno cubo colorido com 20 centímetros de aresta. As primeiras exposições que nela se realizaram contrariavam o tamanho generoso do mundo, as suas ambições desmedidas. Num jornal da época, um conhecido crítico, hoje caído no esquecimento, não sem um certo exagero, fez o seguinte comentário:
“Há apenas cinco anos, o homem conseguiu, num enorme avanço científico, pisar a lua pela primeira vez. Agora, acaba de ser criada na cidade do Porto uma pequena galeria que promete revolucionar o mundo da arte. Um pequeno passo para os artistas que a inventaram, um grande passo para a humanidade. Esta galeria portátil pretende albergar o que de mais interessante se tem vindo a produzir no panorama artístico nacional e internacional. Num espaço tão pequeno, os artistas perderão, certamente, a mania das grandezas. Talvez desde a sua insignificância, sem se levarem demasiado a sério, produzam grandes obras. Esta primeira exposição é extraordinária. Não haja dúvida, o grupo Lamparina tem um talento invulgar. Pelo seu rigor, pelo conteúdo social, pelo componente utópico, pela frescura e grande beleza, esta é uma exposição a não perder”.
Mesmo sem concordar com tudo o que o crítico escreveu, este pequeno excerto serve para ilustrar a ruptura que esta galeria provocou numa sociedade que, timidamente, se começava a abrir ao novo. Originalmente chamada Parade, a galeria passou a chamar-se Extéril. Recebeu um novo nome quando a frustração se foi apoderando dos ideais de toda uma geração. Extéril é esse mundo da técnica com potenciais de progresso, mas usada de forma destrutiva. Extéril é esse mundo do espírito aniquilado pela avidez do êxito. Extéril é esse mundo da informação, da cultura de massas, que destrói o indivíduo. Extéril parece o país em que vivemos. Levar à consciência a esterilidade de uma sociedade articulada nestes moldes é, pois, o primeiro passo para a transformar. O nome não podia ser outro. Se tudo o que é fértil na sociedade actual, seja a ciência, o direito ou a arte, parece condenado à esterilidade, à aridez, veremos se o que se reconhece imediatamente como estéril é capaz de se tornar produtivo. A galeria Parade nasceu do desejo de mudança e no espírito da utopia revolucionária. Foi criada por um grupo de artistas conhecido pela sua capacidade de fantasia, prestidigitação e sentido do burlesco, o grupo Lamparina. Em Dezembro de 1999 e graças ao trabalho exemplar do galerista José Barbosa, transformou-se na Extéril de hoje, assumindo-se como parte do delicado estado do mundo, reconhecendo as suas contradições, as suas feridas, sabendo que a arte por si só é incapaz de as suprimir. É ao José Barbosa que o grupo Lamparina deve o convite para, passados todos estes anos, expor na pequena grande Extéril.
Estarão, certamente, ansiosos por conhecer o destino do maravilhoso cubo colorido. O assunto deu azo a grandes polémicas. Deixemos de lado tudo o que a crítica historicista tem escrito sobre o tema. Vou contar-vos o que sei. Lembro-me como se fosse hoje. Corria uma brisa e as chaminés fumegavam. Não me segurava em pé com a gripe. Os filhos da mãe dos elementos do grupo Lamparina estavam cada vez mais aburguesados. Carro novo, empréstimo para a casa, um T3 novinho em folha. Não é que resolveram destruir a magnífica Parade para a transformar numa pintura monocromática. Atribuir a deplorável transformação da Parade às leis que regem o contexto histórico, ao conjunto de sistemas que governam o quotidiano com independência de cada sujeito ou, até mesmo, ao darwinismo social é apenas uma parte da história. Na realidade, a conversão da Parade numa pintura monocromática deve-se, acima de tudo, à necessidade de decorar uma parede por cima de um sofá de genuíno design italiano. Foi uma decisão tomada de ânimo leve. O mundo da arte reagiu. Um artista emergente riscou-lhes o carro. A indignação chegou aos principais diários e revistas da especialidade. Os títulos não deixam margem para dúvidas: “O im de um grande projecto”; “Escândalo no artworld nacional”; “De galeria rompe-cânones a mero objecto decorativo”.
Apesar dos protestos, o grupo lamparina continuou a assumir a metamorfose da Parade como um autêntico gesto de vanguarda. “Trata-se de uns excelentes quadros monocromáticos”, insistiam os paspalhões, “são uma homenagem ao suprematismo, ao expressionismo abstracto, ao minimalismo e por aí fora. Apresentam a pintura na sua autonomia plena, livre de tudo que lhe é heterogéneo. São uma auto-reflexão do meio”. Ao que um crítico está sujeito. Os lamparinas só pararam quando alguém mais contundente chegou a vias de facto. Bendita seja a lei do murro, deu imediatamente os seus frutos. A partir de esse momento, mudaram de rumo. Foi com grande pesar que, depois dos quadros monocromáticos, o grupo lamparina se viu obrigado a abandonar o carácter ornamental das suas obras.
Desde então, não há sofá de genuíno design italiano que aguente com uma obra do grupo lamparina. De artistas promissores passaram a uma espécie de feirantes, saltimbancos ou vagabundos excêntricos. Vagueiam de terra em terra com o seu teatro ambulante. E assim se vai fazendo a breve, mas intensa, história do grupo lamparina, despreocupado com classificações, nominalismos ou enquadramentos históricos.
J. C. Cordeiro
Fevereiro, 2006
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Numa aldeia yasiidixe, certa tarde, ao fim do sabbat, os judeus reuniam-se numa pobre assembleia. Eram todos moradores da aldeia excepto uma pessoa que ninguém conhecia, um indivíduo miserável e andrajoso, aninhado ao fundo, na penumbra, junto à lareira. As conversas esmoreciam. A certa altura, falou-se do que cada um pediria se lhe fosse concedido um único desejo. Este queria dinheiro, aquele um genro, o terceiro uma bancada de carpinteiro nova e assim por diante.
Todos tinham falado e o mendigo continuava no canto da lareira. De má vontade, lentamente, deu também a sua resposta:
- Gostava de ser um rei poderoso, senhor de vastas terras, e que uma noite, enquanto estivesse a dormir no meu palácio, os inimigos cruzassem a fronteira e antes do alvorecer abrissem caminho até ao meu castelo sem encontrar resistência, que me arrancassem ao sono sem dar-me tempo para me vestir e eu tivesse que desatar a fugir em camisa; que me perseguissem por montes e vales, por bosques e colinas, sem descanso, dia e noite, até que eu me visse aqui sentado neste banco, junto de vós. Seria o meu desejo.
Os outros olharam uns para os outros, sem entender.
- E que ganhavas tu com isso? - perguntou um deles.
- Uma camisa - foi a resposta. |